quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"Quando eu morri..."

Eu estava em uma montanha russa com uma amiga, mas a montanha russa não era aquela clássica de trem, e sim carrinhos que iam duplas. A montanha russa era enorme e não tinha travas nos carrinhos, para que nos segurassem. E apesar desse importante detalhe, no começo não receávamos nada, até porque o início é subida, o problema foi a hora da descida. A garota não conseguia manter-se firme ao banco, eu mal conseguia também, mas ia melhor que ela. Até que ela se soltou e eu fiz um esforço enorme para segurá-la. Heroicamente conseguia segurar minha amiga e me manter agarrada ao banco tentando aguentar até o fim do trajeto, enquanto corríamos a vários quilômetros por hora em velocidade. Até que não aguentei mais e me soltei, minha amiga continuou no carrinho, mas eu fui lançada para fora e cai sobre os trilhos da montanha russa. O carrinho que vinha em sequência, me atropelou e me arremessou dos trilhos ao chão. Cai e sabia que aquilo era o fim. Nos poucos segundos que me restavam de consciência, eu rezava, implorava misericórdia e que me poupasse, pois, morrer era chato e eu não queria ainda. Tão jovem...
Fraca e machucada, eu ainda tentava me manter consciente e agarrada à vida. Meus olhos já começavam a ver escuridão, como em um desmaio, e eu sabia que se deixasse aquela escuridão me dominar, não teria volta. Até que não resisti, suspirei e meu corpo morreu.
Acordei em um quarto escuro, onde havia apenas uma mesa, janela e porta. Notei que sobre a mesa havia um celular, peguei o aparelho e nele havia uma notificação, me informando que um ex namorado havia me adicionado no Facebook. Ótimo, esperou que eu morresse para tentar contato – pensei – Babaca. Tentei acessar meu perfil, mas não podia visualizar nada além daquela notificação. Será que minha família já sabia que eu tinha morrido? Meus amigos? Gente, alguém avisa aí a Pati e a Pri, elas precisam saber. Me entristeci ao pensar neles, não seria fácil receber a notícia.
Olhei pela janela e vi um local escuro e úmido, como se houvesse acabado de chover. Das telhas das casas que estavam fechadas, ainda caiam goteiras. Poucas luzes e ninguém na rua. Senti medo. Sai do quarto e caminhei pela rua, várias poças de água haviam se formado no chão, e eu pisava com cuidado para não escorregar e cair. Então percebi o pensamento inútil que acabara de ter, cair não me machucaria mais, eu tinha morrido. Morri, mas não estava no céu, justo eu, que tinha uma pequena certeza de que iria para lá. Fui boa em vida, mas não o suficiente. Sentei em um degrau de uma longa escada, que daria não sei para onde. Não queria explorar o local, estava escuro, úmido, eu estava só, morta e tinha medo. Tentei falar com Deus, se viva eu tinha certeza que Ele me ouvia, morta eu não consegui sentir isso.
Então vi do outro lado da rua um homem caminhado, parecia longe de mim. Senti medo e comecei a subir as escadas, talvez ele não tenha me visto, talvez desse tempo de fugir. Eu não sabia o porquê estava fugindo, mas institivamente eu fiz isso.
Comecei a ganhar os degraus da escada que não acabava. Olhei para trás e o homem parecia mais próximo. Como poderia estar já tão próximo, se parecia tão longe? Apertei o passo. Olhei para trás novamente, e mais próximo ele parecia estar. Notei que usava um sobretudo e um chapéu que escondia seu rosto. Tratei de caminhar mais rápido, mas sem correr, não queria demonstrar desespero, embora ele já me dominasse. Me virei para olhar para trás novamente e dei de cara com o homem, que sorria de forma macabra, olhou de forma amedrontadora para mim e falou: você vem comigo!
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Acordei assustada. Quinta-feira, o relógio mostrava 9h00, e eu estava atrasada para o trabalho... de novo.
 
 
 
 
"Quando eu morri suando frio
Vi Jimi Hendrix tocando nuvens distorcidas
Eu nem consegui falar
E depois por um momento
O céu virou fragmento do inferno
Em que eu tive que entrar"
 

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