segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Um exemplo de bondade e respeito..."

Entrei no estúdio e recebi a música primeiramente como um tapa, a energia daquele ambiente era muito forte; depois como afago, a introdução de Scar tissue do RHCP só me traz coisas boas. Fechei a porta, larguei minha mochila pesada do patins e sentei-me em uma poltrona para apenas escutar. Meu tornozelo ainda latejava em dor. O instrumental muito bom, a vocalista nem tanto, mas a soma de tudo me agradava. Júlia, minha loirinha chata, se virava como podia nas quatro cordas. O som do baixo dela não era ouvido apenas com meus ouvidos, mas sentido com meu corpo todo. Me arrepiei com aquele som e cheguei a achar que se tivesse um instrumento em mãos, poderia reproduzir cada nota, mesmo que eu não soubesse de cabeça. Aquele ambiente cheirava a música, lembrei da minha adolescência, quanto tempo e dinheiro eu havia investido em ensaios em estúdios? Muito... Alias, "muito", levando em consideração a adolescente pobre que eu era rs
Alguém me serviu um copo de vinho e eu recusei, achei que vinho e analgésicos não seria uma boa mistura. Minutos depois esqueci desse meu pensamento maduro e ao final do ensaio, tinha tomado quase uma garrafa inteira sozinha.
Júlia concentrada no baixo ou por causa da enorme franja loira que caia sobre os olhos, ainda não tinha me visto, quando me viu soltou o tão costumeiro "Biiiibs",e sorria de forma que seus olhos ficavam bem fechadinhos, aqueles olhos cor de caramelo, amarelo... sei lá. Brigou comigo pela demora, mas logo notou minha cara emburrada e calou. Júlia sabe ler minhas expressões como pouca gente sabe. Enquanto ajeitavam detalhes para a próxima música, ela me perguntava o que havia acontecido. Empolgação no patins, uma queda de mal jeito e um torção no tornozelo. Júlia só parou de brigar comigo, acusando meu jeito desastrado, porque a banda já reclamava a demora em iniciar a outra música. Por fim iniciaram, Wonderwall, eu já pensava entediada "sessão clichê... aff", mas a Jú dominava tão bem as cordas, que eu simplesmente deixava de lado meu senso chato-crítico e me deixava levar pela canção. Mas aquela vocal não me convenceu rs. Ouvi mais quatro ou cinco músicas e fim de ensaio.
São Paulo tão fria e úmida, andávamos pela paulista sem muita pressa. Paramos num bar e ela acendeu um cigarro, pedi uma cerveja e ela me acompanhou.
 
O quê tu tinha para me dizer mesmo? - Ela é a única paulistana que conheço, que usa "tu" e "ti", deve ser por causa do pézinho carioca, embora eu não tenha certeza se carioca fala usando a segunda pessoa... Não importa. Travei diante da pergunta. Olhei os olhos de cor que eu não sabia definir e pedi:
- Esquece? - Ela só me respondeu um "ok". É a pessoa mais simples que conheço, e agradeci por isso. Ela entendeu meu silêncio e ouviu meu choro sem questionar. Me acalmou, consolou, mimou e me fez rir. Percebeu minha exaustão e me levou para casa, ou melhor para a sua casa, deixei-me conduzir...
 
Amo tu, Jú. Do meu jeito errado, estranho, desajustado, sincero... Obrigada por cuidar de mim e me aceitar assim. <3
 
 
 
 
 
 
 

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